sexta-feira, 9 de maio de 2008

Despir-me de ti

Caminhei pausadamente até ao carro, sem pressa, nem fardo. Apenas caminhei. Abri a porta do lado do passageiro, porque a do lado do condutor se avariou e tu não chegaste a arranjá-la. Sentei-me, abandonei a carteira ao meu lado, liguei a ignição e vim embora para casa. O silêncio da viagem falou-me de calma. Por pior que fosse a tempestade, tinha para onde voltar. E esse ninho quente recebe-me indiferente ao que se passou lá fora. Meti a chave na porta. Nunca deixo a angústia do lado de lá; arrasto-a para dentro para não me esquecer que ainda existe. Pousei a carteira, as chaves e o iPod, que agora é como um inimigo. Não fui ao frigorífico porque ainda lá está a hortelã que me puseste na orelha. Devia comer alguma coisa, mas não me apeteceu. Passei a mão pela cara e pelo cabelo. Senti na ponta dos dedos o cansaço de te trazer nas minhas costas nas últimas horas. Estava de pé, ainda à entrada, e olhei de soslaio para a sala – quase te vi. Não senti grande coisa. Aceitei que será assim por uns tempos. Fui até ao quarto, sentei-me na beira da cama. Outra vez a mão pelo cabelo e a cara pousada na mão. Tirei os brincos, o colar e o relógio.Descalcei-me e despi-me em velocidade cruzeiro. Felizmente não te vejo no meu corpo. Deitei para lavar a camisa de noite que te viu, e a roupa que me cobriu o corpo contigo. Um pé na banheira, depois o outro. Agora a água quente a limpar-me, o cheiro bom do champô, os músculos a cederem. Penso: choro agora? Não, agora não, daqui a pouco. Saí, sequei-me e vesti um pijama lavado. Entrei para o edredon e quando punha o despertador vi as minhas mãos: faltava tirar o verniz das unhas. A última coisa em mim que te tinha tocado. Levantei-me e fui buscar acetona. Não queria deitar-me com restos de ti.

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