Hoje o tempo parou.
Isso significa que não há tempo, ou que o tempo é infinito?
O tempo parou cá em casa.
Todos os relógios estão parados e eu não percebo o que me querem dizer. Marcam horas diferentes e nem sequer são horas certas. Não sei há quanto tempo está o tempo parado. Perdi a noção do tempo. Será que parou há muito tempo? E o que se passou entretanto, passou-se ou não? É que não existe entretanto se não existir tempo.
O que se deve fazer quando o tempo pára? Ligo para onde a pedir ajuda? E se o tempo deles não chega para mim? Posso ficar quieta à espera que o tempo passe. Mas se o tempo está parado não vai passar. Se o tempo está parado, não adianta fazer nada, porque nada vai acontecer. É o tempo que faz com que tudo aconteça. O tempo é o catalisador de todas as reacções. E de todas as relações. Nada acontece sem tempo.
Se o tempo não passasse sempre, nesta cadência inexorável, o vazio era o fim. A estagnação era a ausência de tudo. Deixaria de haver vida. E morte. Como poderia simultaneamente não haver vida nem morte? Que estado de existência seria esse? Que seria de nós se nos soubéssemos assim, infinitamente imutáveis? Que seria do Mundo sem tempo?
O tempo parado.
Uma chuva a meio da queda. Aviões suspensos no ar. Andorinhas a meio do caminho. Uma grávida para sempre. Moribundos que não morrem. Árvores sem fruto. Flores que não murcham. Rios parados. Mares sem maré. Dia ou Noite?
Sem tempo também não há música. Há notas soltas, há sons surdos, mas jamais haverá música.
Sem tempo não há conversas. Diálogos.
Não há alvorada nem pôr-do-sol.
Sem tempo há o quê? Espera-se o quê?, se sem tempo também não há espera?
Não há objectivos, não há história.
Tempo é evolução, transformação e continuidade.
O tempo é o princípio de tudo. E o fim de tudo. É a estufa, a encubadora do Mundo.
O tempo está parado cá em casa e eu tenho medo que seja só cá em casa. Tenho medo de ir à janela e já ser Inverno. E de haver novos velhos e novos novos. Só novidades.
É indispensável que eu volte outra vez para onde o tempo passa. Não posso perder a passagem do tempo, se não não vou perceber nada, não vou participar.
Talvez seja só falta de pilhas. Numa coincidência angustiante.
Vou sair rápido para apanhar o tempo e comprar as pilhas. O tempo tem de continuar.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
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